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A PIPA E A FLOR (Rubem Alves)

 
 

Era uma vez uma pipa de cara risonha que ficou enfeitiçada por uma florzinha maravilhosa. Não conseguindo mais viver sem ela, deu sua linha para a flor segurar. 
A flor, então soltou a linha para a pipa voar bem alto.
Mas a flor, aqui de baixo, percebeu que estava ficando triste. Não, não é que estivesse ficando triste. Estava ficando com raiva. Que injustiça que a pipa pudesse voar tão alto, e ela tivesse de ficar plantada no chão. E teve inveja da pipa. Tinha raiva ao ver a felicidade da pipa, longe dela... Tinha raiva quando via as pipas lá em cima, tagarelando entre si. E a flor, sozinha, deixada de fora. 
_ Se a pipa me amasse de verdade não poderia estar feliz lá em cima longe de mim. Ficaria o tempo todo comigo... 
E a inveja juntou-se ao ciúme. 
Inveja é ficar infeliz vendo as coisas bonitas e boas que os outros têm, e nós não. 
Ciúme é a dor que dá quando a gente imagina a felicidade do outro, sem que a gente esteja com ele. 
E a flor começou a ficar malvada. Ficava emburrada quando a pipa chegava. Exigia explicação de tudo.
E a pipa começou a ter medo de ficar feliz, pois sabia que isto faria a flor sofrer.
E a flor foi aos poucos, encurtando a linha. 
A pipa não mais podia voar. Via, ali do baixinho, de sobre o quintal (esta era toda a distância que a flor lhe permitia voar) as outras pipas, lá de cima... E sua boca foi ficando triste. E percebeu que já não gostava tanto da flor, como no início.

(Rubem Alves, A pipa e a flor. São Paulo, Loyola)

Vídeo - História contada por Mary Lourdes Oliveira Santos:

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