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Timo, o Caranguejo, Arquiteto da Praia (poema e conto). Caranguejo aparece em uma praia e faz a alegria das crianças.

Timo, o Caranguejo, Arquiteto da Praia (poema e conto). Caranguejo aparece em uma praia e faz a alegria das crianças.


Timo, o Caranguejo, Arquiteto da Praia


Na praia onde o vento escreve em grãos de sal,

vive Timo, pequeno e pálido como a espuma do mar,

sob o sol que rouba a vida e seca o respirar,

ele cava o seu mundo, onde pode se guardar.


Enquanto o mundo humano se espalha em cor e som,

guarda-sóis florescem e risos dançam no ar,

Timo segue em silêncio, com precisão e dom,

um arquiteto paciente que não pode parar.


E então vêm as crianças, em círculo a observar,

olhos cheios de encanto, atentos ao seu fazer,

cada bolinha de areia é um segredo a revelar,

um espetáculo simples que faz o mundo crescer.


No fundo de sua toca há frescor e proteção,

um banquete invisível, um refúgio essencial,

e sem saber, Timo ensina, em sua dedicação,

que o pequeno gesto pode ser grandioso e vital.


Abaixo, o conto que inspirou o poema.


Timo, o Caranguejo, Arquiteto da Praia

Naquela faixa silenciosa de praia, onde o vento desenhava linhas finas sobre a areia, vivia Timo, um pequeno caranguejo de carapaça pálida, quase da cor da espuma do mar.

O sol de meio-dia começava a castigar o litoral, e para Timo, aquele brilho dourado não era um convite ao lazer, mas um sinal de perigo. No mundo dos crustáceos, o sol é um ladrão de umidade, e um caranguejo seco é um caranguejo que não respira.

Timo não era como os outros. Enquanto muitos de sua espécie passavam o dia apenas cavando e se escondendo, ele via significado em cada grão de areia que movia. Sua toca — uma curva profunda em forma de “J” — não era apenas um buraco. Era sua casa, seu escudo, seu mundo. A areia ainda estava fria sob as patas de Timo, que ainda se encontrava na sua toca.


A Escavação Diante dos Olhares das Pessoas

A poucos metros de Timo, o mundo humano fervilhava. Guarda-sóis se abriam como flores coloridas pontuando a areia, toalhas eram estendidas e o som de conversas e risos preenchia o ar, crianças brincavam na areia, passos pesados afundavam na areia. Timo percebia tudo isso — as sombras, os movimentos, o tremor do chão.

Muitos animais teriam fugido para o mar, aterrorizados pela vibração dos passos. Timo, no entanto, era um arquiteto pragmático. O calor não esperava e sua toca precisava ser terminada e limpa. Sabia que, a qualquer momento, poderia correr para dentro de sua toca.

Com uma agilidade coreografada por milênios de instinto, Timo iniciou sua obra, saindo e entrando, cuidadosamente, várias vezes na sua toca. Suas pequenas patas funcionavam como pás de precisão, retirando, com paciência, porções de areia úmida das profundezas e depositando-os na borda. Ele não continuava a cavar apenas um buraco; ele construía um refúgio termodinâmico. Com uma coragem tranquila, Timo seguia seu trabalho, entrando e saindo da toca. Era como um artista que se recusava a parar, mesmo com o mundo girando ao redor, como se estivesse escrevendo uma história no chão da praia.


O Fascínio das Crianças

O movimento frenético de Timo não passou despercebido por muito tempo. Um menino de chapéu foi o primeiro a vê-lo, parando a meio caminho do mar com seu balde plástico. Logo,  outras crianças se juntaram a ele, agachando-se em um semicírculo respeitoso, a uma distância segura, os olhos arregalados de admiração, observavam em silêncio.

— Olha! Ele tá trazendo bolinhas de areia do fundo da toca! — dizia uma voz animada.

Elas observavam, fascinadas e em silêncio ciente, enquanto Timo executava suas viagens à superfície. Os adultos passavam, muitas vezes sem perceber. Mas as crianças acompanhavam cada movimento de Timo, como se estivessem diante de um pequeno espetáculo da natureza. 

Timo depositava a areia tirada da toca, criando uma pequena muralha ao redor da entrada — sua defesa também contra o bico de uma gaivota que rodeava o céu, pairando sobre as silhuetas de pessoas e peixes na água. 

Timo, mesmo atento ao perigo, parecia entender aqueles olhares curiosos das crianças. Não fugia à primeira sombra. Continuava, paciente, construindo seu círculo de pequenas obras.

E ali, entre o vai e vem das ondas e o riso leve das crianças, Timo transformava algo simples em algo extraordinário.


O Banquete e o Santuário

Enquanto aprofundava sua toca em um formato de "J", Timo aproveitava o trabalho para se alimentar. Ele levava pequenas porções de areia à boca, filtrando microscopicamente a matéria orgânica e os nutrientes trazidos pela maré anterior — um banquete invisível.

O que sobrava eram as bolinhas de areia limpa, que ele descartava com o cuidado de um joalheiro, formando padrões geométricos na entrada de sua casa, para o deleite das crianças que, em sussurros animados, tentavam contar cada bolinha.

Após atingir quase um metro de profundidade, Timo sentiu o toque reconfortante da água acumulada no fundo, essencial para a gestão de água branquial. Ali, o ar era fresco. Ele mergulhou as laterais do corpo, recarregando o estoque de oxigênio.

Lá fora, o mundo era um caos de predadores e calor, mas Timo continuava, indiferente à multidão que agora se aproximava para ver o que fascinava tanto as crianças. Ele sabia que sua engenharia era a única coisa capaz de manter o oceano e o deserto em perfeito equilíbrio, enquanto suas bolinhas de areia limpa garantiam que o banquete invisível continuasse, alegrando, sem saber, o dia daqueles observadores.

Sua toca ainda era abrigo — contra o sol, contra predadores, contra a maré. Mas agora, também era palco. E, mesmo sem saber, aquele pequeno caranguejo ensinava algo importante a quem o observava: Que até os menores gestos, feitos com constância e propósito, podem encantar o mundo inteiro.


(Marcos Alves de Andrade)


Vídeo de um Caranguejo na praia



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O Pé de Caqui e os Tucanos: Gratidão da Natureza

O Pé de Caqui e os Tucanos: Gratidão da Natureza. Uma reflexão emocionante.


O PÉ DE CAQUI E OS TUCANOS: GRATIDÃO DA NATUREZA


No quintal de Dona Vilma, em que o tempo parecia aprender a caminhar devagar e o sol da tarde se esparramava preguiçoso, havia um Pé de Caqui. Não fora plantado — disso ela tinha certeza. Surgira como surgem certos milagres discretos: sem anúncio, sem testemunhas, apenas o gesto invisível da vida insistindo em acontecer. Ela gostava de imaginar que foi algum viajante apressado, talvez um sabiá, um bem-te-vi ou um sanhaço, que carregava a semente no bico e a deixou cair ali, bem no cantinho que o vento protegia.


Dona Vilma gostava de contar essa história para quem quisesse ouvir:


— Eu estava varrendo as folhas secas, trazidas pelo vento, quando vi um brotinho miúdo rompendo o chão, perto do muro. No começo, pensei que fosse erva daninha, ia até arrancar. Mas aí olhei direito e vi que era diferente. Era uma árvore querendo vir ao mundo sem pedir licença e a terra, silenciosa como sempre, a acolheu.


Logo que na pequena árvore apareceram alguns galhos e folhas, Dona Vilma pesquisou, com amigos e familiares, bem como na internet, e constatou que se tratava de um Pé de Caqui da variedade Rama Forte, que tem coloração avermelhada que se assemelha ao tomate, polpa com consistência gelatinosa, menos ácida e rica em amido e frutose. Com o tempo, naquele pequeno reino verde, o caquizeiro, com galhos retorcidos e folhas que brilhavam como se fossem enceradas, crescia forte, robusto, como quem tem um propósito.


Dona Vilma sempre retirava ervas daninhas em volta do Pé de Caqui, deixando somente grama que não prejudicasse seu crescimento e aguava diariamente nas épocas sem chuva. Em poucos anos, já dava sombra e, mais importante, quando o outono chegava, o quintal se transformava. O verde dava lugar a centenas de esferas alaranjadas — os caquis, que ficam com coloração vermelha quando maduros —, doces como mel, que pendiam dos galhos que se curvavam como quem oferece presentes. Primeiro tímidos. Depois abundantes. Era o sinal para a festa começar. E nunca faltavam visitantes.


Do outro lado do quintal, havia um bambuzal alto e denso, como uma muralha de hastes douradas. É ali que, há muitos anos, um casal de tucanos, de bico alaranjado e peito branco, barulhentos e alegres, construía ninhos e criava seus filhotes. Eles anunciavam sua presença com um canto peculiar, quase como uma risada ecoando entre os bambus. Muitas vezes apareciam, alegrando o ambiente: voavam até um abacateiro próximo, à procura de frutos maduros, ou para mais longe.


Dona Vilma os reconhecia de longe pelo voo, pelas cores, pelos grandes bicos alaranjados.


— São os tucanos — ela dizia, ao vê-los e ouvir o tuc-tuc-tuc característico.


O casal de tucanos construía o ninho com dedicação, e logo o bambuzal, em que o mistério da vida se renovava a cada estação, se enchia de vidas novas — pequenos bicos curiosos espiando o mundo. Os filhotes cresciam protegidos pela oscilação dos bambus ao vento. Os tucanos-pais ensinavam os filhotes novinhos a voar, primeiramente com pequenos voos em volta do bambuzal, depois arriscando até árvores mais próximas, inclusive até o abacateiro, onde aprendiam a bicar algum fruto maduro. Mas, além do abacate, todos precisavam comer outros frutos, com outros sabores e outras vitaminas.


Os filhotes aprendiam rápido, com os pais, o caminho até o Pé de Caqui. Primeiro observavam, depois arriscavam voos próximos, até que, um dia, já estavam ali, disputando espaço entre sabiás-laranjeiras, bem-te-vis, alguns sanhaços mais ousados e até um ou outro joão-de-barro curioso. O Caquizeiro do quintal da Dona Vilma virou o “ponto de encontro” da vizinhança alada. Era uma festa silenciosa e colorida, que só quem parasse para olhar com calma conseguiria perceber.


E que festa era aquela! Quando os caquis amadureciam, o quintal inteiro virava uma celebração. Com uma destreza impressionante, os pássaros colhiam os caquis mais maduros, partindo a casca fina para revelar a polpa gelatinosa. Os tucanos-pais ensinavam os filhotes novinhos a bicar os frutos. Os bebês tucanos, ainda com o bico curto e desengonçado, ensaiavam voos atrapalhados entre um caqui e outro. Dona Vilma costumava dizer que o quintal não lhe pertencia; ela era apenas a zeladora de um banquete que a própria terra organizava.


Dona Vilma assistia a tudo da janela da cozinha, com um sorriso que não precisava de explicação. Às vezes, com uma xícara de café aquecendo as mãos, ela observava o espetáculo. Nunca colhia todos os frutos; aliás, eram muitos. Sabia — de um saber que não se aprende em livros — que algumas coisas não são feitas para serem guardadas. São feitas para circular. O Pé de Caqui não era só dela. Era um ponto de encontro, um pequeno acordo entre o humano e o natural.


— Comam — murmurava, quase em oração. — A árvore também é de vocês.


Dona Vilma só colhia alguns caquis, geralmente os que se encontravam mais baixos. O resto, oferecia de coração. Dizia que o gosto maior estava em ver aquela algazarra de penas e cantos. Quando lhe perguntavam por que não vendia os frutos, já que eram tantos e tão bonitos, sorria com a paciência de quem já atravessou certas respostas, Dona Vilma respondia com simplicidade:


— Nem tudo que chega até a gente é para guardar.


Numa tarde qualquer — embora nenhuma fosse realmente comum — uma vizinha lhe fez a pergunta inevitável:


— Como pode? Um pé de caqui tão bonito, que dá muitos frutos, sem nunca ter sido plantado… é mágica?


Dona Vilma olhou demoradamente para a árvore, para o bambuzal, para o céu, para  os tucanos que, naquele momento, ensaiavam um voo rasante entre os galhos. Havia, naquele instante, uma ordem silenciosa ligando tudo — algo que não se explica, mas se reconhece. E respondeu, com seus olhos mansos de quem já entendeu o que poucos entendem:


— Mágica não, minha amiga. É a natureza agradecendo. A gente cuida do quintal, oferece paz e tranquilidade. Aí, um dia, um passarinho qualquer resolve deixar um presente no chão. Esse presente vira sombra, vira fruta, vira casa. A natureza só quer saber se a gente tem espaço para ela no coração. Se tiver, ela mesma se encarrega do resto.


E, depois de uma pausa que parecia conter mais do que palavras:


— A natureza devolve.


A vizinha não compreendeu por inteiro. Nem era preciso. Mas os tucanos, já pousados no alto do Caquizeiro, entenderam. Um deles, pousado mais perto do que de costume, olhando direto para Dona Vilma por alguns segundos, inclinou levemente a cabeça, como quem observa além da aparência, e soltou seu canto — seco, metálico, quase riso. Dona Vilma riu também. E, por um instante, ela teve a sensação de que havia sido compreendida.


Para Dona Vilma, o caquizeiro era a prova viva de uma matemática sagrada: um pássaro trouxe a semente, a terra deu a árvore, e agora a árvore alimentava os netos daquele primeiro pássaro. No quintal de Dona Vilma, nada se perdia, tudo se compartilhava, e o que não faltava era gratidão — de todos os lados. Um ciclo simples e absoluto: o que chega, transforma; o que se oferece, permanece; o que se compartilha, multiplica. A natureza, em um gesto de gratidão silenciosa, resolveu retribuir com uma árvore frutífera.


E, assim, Dona Vilma compreendia que ali também se revelava a presença de Deus: não em palavras grandiosas, mas no ciclo perfeito da vida, onde cada gesto de cuidado encontra resposta, e cada semente carrega um propósito — como se o divino se manifestasse, discretamente, na harmonia entre o homem e a natureza.


(Marcos Alves de Andrade)



Canários no Fubá, poema e conto. Alegria da senhora que todos os dias coloca comida para os pássaros no seu quintal.


Canários no Fubá (Poema)

Manhã serena no quintal florido,
Sol dourado na mangueira a brilhar,
Cheiro de terra molhada, tão querido,
E o fubá no beiral a tilintar.

Canários da terra, amarelinhos a chegar,
Nos galhos espertos, bicando o grão,
Olhinhos negros atentos a espiar,
E um canto breve de gratidão.

Dona Matilde sorri na varanda em flor,
Companheiros de cada amanhecer,
Conhece a voz, o desafinado cantor,
E o trinado doce que faz o tempo esquecer.

O fubá se finda, levantam voo ligeiro,
Ecoa o canto, rastro leve no ar,
Mas amanhã, no mesmo terreiro,
A vida em melodia há de voltar.


CANÁRIOS NO FUBÁ (conto que inspirou o poema)


Era uma manhã tranquila no quintal da casa de dona Matilde. O sol ainda tímido espalhava luz dourada sobre as árvores frutíferas, goiabeira, mangueira, pitangueira, entre outras, e o vento trazia o cheiro fresco da terra molhada. 

No meio daquele silêncio, apenas o tilintar dos grãos de fubá caindo no beiral da varanda, colocados por dona Matilde, quebrava a calmaria.  

Como dona Matilde fazia aquilo todos os dias, chegaram alguns canários-da-Terra, pequenos e amarelos como pedaços de sol caídos no chão. Alguns permaneceram nas árvores, outros, sempre espertos, bicavam o fubá com voracidade, seus olhinhos negros atentos a qualquer movimento. De vez em quando, um deles parava, erguia a cabecinha e soltava um canto breve, linda melodia, como se agradecesse pela comida. Os demais, próximos, também cantavam. Os sons dos pássaros ecoavam entre a mangueira, a goiabeira e a pitangueira, misturando-se ao farfalhar das folhas.  

Dona Matilde, sentada na varanda com seu café quente, sorria. Aqueles pássaros eram seus companheiros de todas as manhãs. Sabia cada um pelo jeito de cantar: o mais velho, de voz rouca; o jovem, que ainda desafinava; e a fêmea, que raramente se manifestava, mas quando o fazia, era um trinado tão doce que parecia uma melodia secreta.  

Os pássaros se revezavam comendo o fubá. Quando o último grão de fubá desapareceu, os canários levantaram voo, um a um, deixando para trás apenas o eco de seus cantos e o vago rastro de suas asas no ar. 

Dona Matilde suspirou, sabendo que no dia seguinte eles voltariam. Enquanto houvesse fubá, sol e árvores, os canários-da-terra sempre cantariam ali, trazendo consigo a música simples da vida.  

E assim, naquele quintal, a rotina era uma canção e cada dia um verso novo que alegrava dona Matilde.

(Marcos Alves de Andrade)


Vídeo do Canários no Fubá:




Vídeo no YouTube > https://youtu.be/eHDrGTbEH-Q


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Thor, o Cão Guardião da Casa (e do Controle da TV), poema e conto. Um cão sentimental que faz companhia para sua dona.



Thor, o Cão Guardião da Casa (e do Controle da TV)


No sofá florido, Thor se estica,
Com olhar sério, quase uma crítica.
A TV ligada, ele já escolheu,
Nada de novela — o gosto é só seu!

Dona Lúcia tenta argumentar,
Mas Thor só a olha sem se levantar.
“Esse canal? Já vi ontem à tarde!
Vamos ver cães-heróis com coragem!”

Com a pata firme sobre o botão,
Protege os controles com devoção.
É cão, mas parece um rei de verdade,
Comanda a sala com autoridade.

Entre almofadas, flores e luz,
É ele quem manda — não se discute!
Um latido curto, um olhar profundo,
Thor é o juiz da telinha do mundo.

E no fim do dia, tudo em paz,
Ele cochila e ninguém o desfaz.
Com sonhos de séries e grandes missões,
Thor dorme feliz — o guardião dos botões.


Conto que inspirou o poema:


Thor, o Cão Guardião da Casa (e do Controle da TV).


Em uma casa tranquila, cercada por móveis antigos e flores sempre bem cuidadas, vivia Thor, um cão tão esperto quanto majestoso. Dono de um olhar profundo e expressivo, ele era mais do que apenas um animal de estimação — era o verdadeiro mestre da sala.

O sofá verde com pinturas de flores desbotadas já conhecia bem o peso suave de Thor. Ali, entre almofadas gastas e o perfume doce que exalava das flores que haviam em um canto da sala, todas as tardes, após o almoço, Thor se deitava em um ritual silencioso que só ele parecia entender.

Agora, com a casa mais vazia e o tempo caminhando devagar, era Thor quem fazia companhia às tardes silenciosas. A televisão, sempre exibindo novelas antigas, era como uma trilha sonora para as lembranças que preenchiam o ambiente. 

Entre as patas da frente  de Thor, acomodado no sofá, cuidadosamente posicionado, estava o  controle remoto da televisão que se encontrava sobre um lindo móvel ao lado de outro, também belo, com vidraças nas portas mostrando objetos cuidadosamente colocados ali. Era o ritual de Thor: vigiar o controle remoto da televisão para que ninguém mudasse de canal sem sua aprovação, como se tentasse segurar o tempo, impedir que a solidão mudasse o canal da vida.

Thor não era apenas um cachorro. Era a memória viva daquela casa. Desde filhote, acompanhara cada capítulo da vida de Dona Lúcia: os risos, os choros, as visitas que vinham e iam, o passar das estações do lado de fora da janela.

Naquela tarde, Dona Lúcia tentava assistir a sua novela favorita, mas Thor estava atento, observando calmamente a movimentação. Ele fitava a tela como quem analisava um julgamento complicado: "Drama familiar? Chato. Cadê o programa de cachorros super-heróis?", pensava, balançando a cauda com desdém. Mas, seus olhos atentos denunciavam seu pensamento: "Que ninguém ouse colocar naquele programa de culinária chato de novo".

Todo mundo na casa sabia: mudar o canal sem a permissão de Thor era considerado um fato desagradável para ele. Tinha gente que jurava que ele sabia qual botão era o "mudo" e ameaçava usá-lo se o programa não fosse do seu agrado.

A dona da casa, Dona Lúcia, já havia aprendido que discutir com Thor era inútil. Sempre que alguém tentava pegar o controle remoto, ele apenas levantava uma sobrancelha (de uma forma incrivelmente expressiva para um cachorro) e, lentamente, apoiava uma pata sobre o aparelho, como se dissesse: "Reflita bem sobre suas escolhas."

Para todos, aquilo era uma grande brincadeira. Mas para Thor, era uma missão sagrada: proteger a harmonia da sala, garantindo que os programas fossem, acima de tudo, interessantes — cheios de ação, de emoção, ou pelo menos de barulhos divertidos de outros animais.

Dona Lúcia, sentada em sua poltrona favorita, trocava olhares com Thor. Era um entendimento silencioso, uma troca de amor que dispensava palavras. Em seu olhar, ela via o que talvez mais precisasse: a certeza de que não estava sozinha.

E assim, entre olhares, suspiros e uma autoridade silenciosa (mas muito peluda), Thor manteve seu domínio sobre a programação. Afinal, em uma casa onde o sofá tinha pinturas de flores e a televisão exibia novelas, o verdadeiro astro era ele:  Thor - o guardião da casa (e do controle remoto da TV) que, mesmo simples, carregava todo o amor de um lar, cheia de memórias, que ainda pulsava, e, sem dúvida, o melhor amigo que seus moradores tinham. 


(Marcos Alves de Andrade)


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Timo, o Caranguejo, Arquiteto da Praia (conto e poema). Caranguejo aparece em uma praia e faz a alegria das crianças.



Timo, o Caranguejo, Arquiteto da Praia

Naquela faixa silenciosa de praia, onde o vento desenhava linhas finas sobre a areia, vivia Timo, um pequeno caranguejo de carapaça pálida, quase da cor da espuma do mar.

O sol de meio-dia começava a castigar o litoral, e para Timo, aquele brilho dourado não era um convite ao lazer, mas um sinal de perigo. No mundo dos crustáceos, o sol é um ladrão de umidade, e um caranguejo seco é um caranguejo que não respira.

Timo não era como os outros. Enquanto muitos de sua espécie passavam o dia apenas cavando e se escondendo, ele via significado em cada grão de areia que movia. Sua toca — uma curva profunda em forma de “J” — não era apenas um buraco. Era sua casa, seu escudo, seu mundo. A areia ainda estava fria sob as patas de Timo, que ainda se encontrava na sua toca.


A Escavação Diante dos Olhares das Pessoas

A poucos metros de Timo, o mundo humano fervilhava. Guarda-sóis se abriam como flores coloridas pontuando a areia, toalhas eram estendidas e o som de conversas e risos preenchia o ar, crianças brincavam na areia, passos pesados afundavam na areia. Timo percebia tudo isso — as sombras, os movimentos, o tremor do chão.

Muitos animais teriam fugido para o mar, aterrorizados pela vibração dos passos. Timo, no entanto, era um arquiteto pragmático. O calor não esperava e sua toca precisava ser terminada e limpa. Sabia que, a qualquer momento, poderia correr para dentro de sua toca.

Com uma agilidade coreografada por milênios de instinto, Timo iniciou sua obra, saindo e entrando, cuidadosamente, várias vezes na sua toca. Suas pequenas patas funcionavam como pás de precisão, retirando, com paciência, porções de areia úmida das profundezas e depositando-os na borda. Ele não continuava a cavar apenas um buraco; ele construía um refúgio termodinâmico. Com uma coragem tranquila, Timo seguia seu trabalho, entrando e saindo da toca. Era como um artista que se recusava a parar, mesmo com o mundo girando ao redor, como se estivesse escrevendo uma história no chão da praia.


O Fascínio das Crianças

O movimento frenético de Timo não passou despercebido por muito tempo. Um menino de chapéu foi o primeiro a vê-lo, parando a meio caminho do mar com seu balde plástico. Logo,  outras crianças se juntaram a ele, agachando-se em um semicírculo respeitoso, a uma distância segura, os olhos arregalados de admiração, observavam em silêncio.

— Olha! Ele tá trazendo bolinhas de areia do fundo da toca! — dizia uma voz animada.

Elas observavam, fascinadas e em silêncio ciente, enquanto Timo executava suas viagens à superfície. Os adultos passavam, muitas vezes sem perceber. Mas as crianças acompanhavam cada movimento de Timo, como se estivessem diante de um pequeno espetáculo da natureza. 

Timo depositava a areia tirada da toca, criando uma pequena muralha ao redor da entrada — sua defesa também contra o bico de uma gaivota que rodeava o céu, pairando sobre as silhuetas de pessoas e peixes na água. 

Timo, mesmo atento ao perigo, parecia entender aqueles olhares curiosos das crianças. Não fugia à primeira sombra. Continuava, paciente, construindo seu círculo de pequenas obras.

E ali, entre o vai e vem das ondas e o riso leve das crianças, Timo transformava algo simples em algo extraordinário.


O Banquete e o Santuário

Enquanto aprofundava sua toca em um formato de "J", Timo aproveitava o trabalho para se alimentar. Ele levava pequenas porções de areia à boca, filtrando microscopicamente a matéria orgânica e os nutrientes trazidos pela maré anterior — um banquete invisível.

O que sobrava eram as bolinhas de areia limpa, que ele descartava com o cuidado de um joalheiro, formando padrões geométricos na entrada de sua casa, para o deleite das crianças que, em sussurros animados, tentavam contar cada bolinha.

Após atingir quase um metro de profundidade, Timo sentiu o toque reconfortante da água acumulada no fundo, essencial para a gestão de água branquial. Ali, o ar era fresco. Ele mergulhou as laterais do corpo, recarregando o estoque de oxigênio.

Lá fora, o mundo era um caos de predadores e calor, mas Timo continuava, indiferente à multidão que agora se aproximava para ver o que fascinava tanto as crianças. Ele sabia que sua engenharia era a única coisa capaz de manter o oceano e o deserto em perfeito equilíbrio, enquanto suas bolinhas de areia limpa garantiam que o banquete invisível continuasse, alegrando, sem saber, o dia daqueles observadores.

Sua toca ainda era abrigo — contra o sol, contra predadores, contra a maré. Mas agora, também era palco. E, mesmo sem saber, aquele pequeno caranguejo ensinava algo importante a quem o observava: Que até os menores gestos, feitos com constância e propósito, podem encantar o mundo inteiro.


Poema inspirado no conto


Timo, o Caranguejo, Arquiteto da Praia


Na praia onde o vento escreve em grãos de sal,

vive Timo, pequeno e pálido como a espuma do mar,

sob o sol que rouba a vida e seca o respirar,

ele cava o seu mundo, onde pode se guardar.


Enquanto o mundo humano se espalha em cor e som,

guarda-sóis florescem e risos dançam no ar,

Timo segue em silêncio, com precisão e dom,

um arquiteto paciente que não pode parar.


E então vêm as crianças, em círculo a observar,

olhos cheios de encanto, atentos ao seu fazer,

cada bolinha de areia é um segredo a revelar,

um espetáculo simples que faz o mundo crescer.


No fundo de sua toca há frescor e proteção,

um banquete invisível, um refúgio essencial,

e sem saber, Timo ensina, em sua dedicação,

que o pequeno gesto pode ser grandioso e vital.


(Marcos Alves de Andrade)


Vídeo de um Caranguejo na praia



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A CASA EMPRESTADA (poema e conto)

A Casa Emprestada (poema)

No coração do bosque, no robusto Jacarandá,
Ficava um lar de barro, redondo a repousar.
Obra de joões-de-barro, vazia a esperar,
Com a entrada lateral, forte pra abrigar.

Chegaram Juca e Flora, periquitos a vibrar,
Pequenos, verdes leves, em busca de um lugar.
A casa abandonada, um presente a se mostrar,
Perfeita e segura, o ninho a começar.

Com capins forraram, o chão duro a aquecer,
Flora pôs três pérolas, a vida a florescer.
Juca, guarda atento, a vigiar e a trazer,
Sementes e frutas, para o lar se manter.

Os ovos se abriram, num pio estridente e leve,
Três frágeis criaturinhas, rosadas, sem preceve.
Os pais em frenesi, a rotina que se eleve,
Alimento e carinho, o lar que se re-teve.

Ganharam cor e plumas, ensaiaram o voar,
Deixaram a casa emprestada, prontos para desbravar.
Zeca e Nina voltaram, a casa a inspecionar,
Os joões-de-barro construtores, que vieram recordar.

"Obrigada", gorjeou Flora, com a voz a agradecer,
"A casa é do vento", Zeca soube dizer.
A casa cumpre o propósito, de amor e de crescer,
Fica ali no galho, a próxima família a acolher.

A Casa Emprestada (conto)

No coração de um bosque, onde a natureza reclamava seus espaços, aninhava-se uma velha e robusta casa de barro, redonda e firme, no galho de um Jacarandá. Não era uma casa humana, mas sim o lar abandonado de um laborioso casal de joões-de-barro, que a construiu e a moldou com esmero pelos seus bicos habilidosos. Com sua arquitetura esférica e entrada lateral, era uma fortaleza perfeita contra o vento e a chuva, mas foi deixada vazia após o casal criar seus filhotes na última estação. Agora, repousava silenciosa, como quem aguardava novas histórias.

Certo dia, a tranquilidade do local foi quebrada por um casal de vibrantes periquitos. Eram pequenos, leves e barulhentos como risadas ao vento. Eles eram Juca, o macho, com suas penas verde-esmeralda cintilantes, e Flora, a fêmea, de um verde mais suave e calmo. Procuravam desesperadamente um lugar seguro para começar uma nova família, e a casinha de barro, com sua entrada ligeiramente maior do que o necessário, protegida contra o vento e chuva parecia um presente dos céus. Eles a cheiraram, olharam ao redor, entraram e saíram, testando o espaço e verificaram que estava vazia e não estava sendo usada. E, por fim, decidiram:

— “Juca, é perfeito, aqui será nosso lar”, gorjeou Flora. 

Juca, pousado num galho próximo, concordou: 

_ "Ficarei de guarda. Vamos começar a nossa família, Flora."

Em seguida, limparam a casa, colocaram alguns capins no interior, que carregavam, um a um, com seus bicos, forrando, assim, o chão duro de barro para ficar aconchegante. Não demorou muito para que Flora depositasse no interior da casa, sobre o ninho de capim, seus preciosos ovos esbranquiçados, três pequeninas pérolas brancas, e passou a chocá-los com paciência e carinho.

A rotina se estabeleceu: Flora, paciente e dedicada, passava os dias chocando os ovos, sentindo o calor da vida crescer sob suas penas. Juca, por sua vez, era o guardião incansável, mantinha-se sempre atento. Ficava próximo, pousado no galho vizinho, vigiando qualquer sinal de perigo. Ele patrulhava a área, alertando sua companheira, com piados de aviso, sobre a presença de gaviões ou escorraçando curiosos. Era um guardião corajoso e fiel. Juca também sempre trazia sementes e frutas para Flora.

Então, veio a recompensa alguns dias depois. Os ovos se mexeram. O suave quebrar das cascas anunciou a chegada de três minúsculas criaturinhas rosadas, nus, frágeis e famintas. A casa de barro, antes silenciosa, ecoava agora com os pios estridentes e alegres dos filhotes. O casal de periquitos entrou em uma frenética e feliz rotina de pais. Buscavam, revezando, sementes, pequenas frutas, brotos frescos. Entravam e saíam do ninho dezenas de vezes ao dia, sempre com cuidado, sempre em parceria. Juca e Flora preenchiam aqueles pequenos bicos abertos com o máximo de alimento possível. 

Os filhotes cresciam dia a dia, ganhando as primeiras peninhas, finas como fios de tinta, criando, no início, uma penugem, depois penas. Eles ensaiavam seus primeiros e desajeitados saltos dentro da casa, aprendiam a se equilibrar e, por fim, a bater as asas. 

Quando o dia chegou — aquele dia em que o céu estava claro e o vento parecia chamar — eles voaram próximo a casa. Pequenos, ainda trêmulos, um a um, com incentivo dos pais e o coração batendo forte, eles saíram da casa e fizeram seus primeiros voos, desengonçados no início, mas rapidamente ganhando confiança no vasto céu azul. Também aprendiam com os pais a se alimentarem, sem necessidade da ajuda deles. Em poucas semanas, os jovens periquitos estavam prontos para viver fora da casa e constituírem suas próprias famílias.

O casal de periquitos, exausto, mas radiante, em uma manhã, estava prestes a partir quando um barulho familiar ecoou na floresta: o tlec-tlec característico dos joões-de-barro. Eram Zeca e Nina, os construtores originais, que voltavam para inspecionar seu antigo ninho, talvez pensando em reformá-lo para uma nova ninhada ou apenas por hábito ou para lembrarem da felicidade que tiveram ali com seus filhotes.

Juca e Flora pousaram no galho ao lado da casa e esperaram que o casal de joões-de-barro os notasse. Zeca, o joão-de-barro, olhou para a entrada de sua casa, notando que parecia um pouco mais gasta, mas a casa estava intacta. Olharam para o casal de periquitos e seus filhotes já fortes, e nada disseram. Apenas observaram com olhos tranquilos e sábios. Eles sabiam que a vida segue, que um lar pode ser herança de amor.

Flora, agradecida, com a cabeça baixa em sinal de respeito, aproximou-se e gorjeou com suavidade:

— ObrigadaSua casa nos acolheu. Aqui nossos filhotes nasceram e aprenderam a voar.

Juca continuou, com a voz cheia de gratidão: 

_ "Permitimos-nos usá-la, e não sabemos como agradecer. Ela nos salvou. Nossos três filhotes nasceram e cresceram aqui dentro, seguros de todos os perigos. Estão prontos para  sairem para o mundo."

Zeca e Nina se entreolharam. Os joões-de-barro são aves de hábitos, mas também de uma generosidade natural, embora inconsciente. Eles entenderam o que havia acontecido. Zeca respondeu com simplicidade, mas com a sabedoria de quem conhece a natureza:

— A casa é do vento e de quem precisa dela. Ficamos felizes que serviu a vocês.

Nina, a joão-de-barro, inclinou a cabeça e emocionada gorjeou: 

_ "Uma boa casa é feita para proteger. Se ela serviu a vocês e aos seus filhotes, então cumpriu o seu propósito. Nossos filhos também foram gerados, criados e voaram daqui."

Zeca bateu o bico uma vez, em um gesto que parecia um aceno. 

_ "Voem e sejam felizes. A casa estará aqui, se precisarmos dela novamente, ou se outra família precisar de um abrigo."

Juca e Flora sentiram seus corações aliviados. Com um agradecimento final e sincero, eles se juntaram aos seus jovens, agora a testar as asas no alto da copa das árvores. Eles olharam para trás, para a casa de barro que lhes dera uma família, e prometeram que sempre se lembrariam da generosidade silenciosa e anônima da casa emprestado.

O casal de joão-de-barro, também, logo partiria para construir uma nova casa, pois cada estação traz um novo capítulo. 

E a casinha de barro permaneceu ali no galho, firme, paciente — esperando a próxima família que precisasse de um lar.

(Marcos Alves de Andrade)



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