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O Pé de Caqui e os Tucanos: Gratidão da Natureza

O Pé de Caqui e os Tucanos: Gratidão da Natureza. Uma reflexão emocionante.


O PÉ DE CAQUI E OS TUCANOS: GRATIDÃO DA NATUREZA


No quintal de Dona Vilma, em que o tempo parecia aprender a caminhar devagar e o sol da tarde se esparramava preguiçoso, havia um Pé de Caqui. Não fora plantado — disso ela tinha certeza. Surgira como surgem certos milagres discretos: sem anúncio, sem testemunhas, apenas o gesto invisível da vida insistindo em acontecer. Ela gostava de imaginar que foi algum viajante apressado, talvez um sabiá, um bem-te-vi ou um sanhaço, que carregava a semente no bico e a deixou cair ali, bem no cantinho que o vento protegia.


Dona Vilma gostava de contar essa história para quem quisesse ouvir:


— Eu estava varrendo as folhas secas, trazidas pelo vento, quando vi um brotinho miúdo rompendo o chão, perto do muro. No começo, pensei que fosse erva daninha, ia até arrancar. Mas aí olhei direito e vi que era diferente. Era uma árvore querendo vir ao mundo sem pedir licença e a terra, silenciosa como sempre, a acolheu.


Logo que na pequena árvore apareceram alguns galhos e folhas, Dona Vilma pesquisou, com amigos e familiares, bem como na internet, e constatou que se tratava de um Pé de Caqui da variedade Rama Forte, que tem coloração avermelhada que se assemelha ao tomate, polpa com consistência gelatinosa, menos ácida e rica em amido e frutose. Com o tempo, naquele pequeno reino verde, o caquizeiro, com galhos retorcidos e folhas que brilhavam como se fossem enceradas, crescia forte, robusto, como quem tem um propósito.


Dona Vilma sempre retirava ervas daninhas em volta do Pé de Caqui, deixando somente grama que não prejudicasse seu crescimento e aguava diariamente nas épocas sem chuva. Em poucos anos, já dava sombra e, mais importante, quando o outono chegava, o quintal se transformava. O verde dava lugar a centenas de esferas alaranjadas — os caquis, que ficam com coloração vermelha quando maduros —, doces como mel, que pendiam dos galhos que se curvavam como quem oferece presentes. Primeiro tímidos. Depois abundantes. Era o sinal para a festa começar. E nunca faltavam visitantes.


Do outro lado do quintal, havia um bambuzal alto e denso, como uma muralha de hastes douradas. É ali que, há muitos anos, um casal de tucanos, de bico alaranjado e peito branco, barulhentos e alegres, construía ninhos e criava seus filhotes. Eles anunciavam sua presença com um canto peculiar, quase como uma risada ecoando entre os bambus. Muitas vezes apareciam, alegrando o ambiente: voavam até um abacateiro próximo, à procura de frutos maduros, ou para mais longe.


Dona Vilma os reconhecia de longe pelo voo, pelas cores, pelos grandes bicos alaranjados.


— São os tucanos — ela dizia, ao vê-los e ouvir o tuc-tuc-tuc característico.


O casal de tucanos construía o ninho com dedicação, e logo o bambuzal, em que o mistério da vida se renovava a cada estação, se enchia de vidas novas — pequenos bicos curiosos espiando o mundo. Os filhotes cresciam protegidos pela oscilação dos bambus ao vento. Os tucanos-pais ensinavam os filhotes novinhos a voar, primeiramente com pequenos voos em volta do bambuzal, depois arriscando até árvores mais próximas, inclusive até o abacateiro, onde aprendiam a bicar algum fruto maduro. Mas, além do abacate, todos precisavam comer outros frutos, com outros sabores e outras vitaminas.


Os filhotes aprendiam rápido, com os pais, o caminho até o Pé de Caqui. Primeiro observavam, depois arriscavam voos próximos, até que, um dia, já estavam ali, disputando espaço entre sabiás-laranjeiras, bem-te-vis, alguns sanhaços mais ousados e até um ou outro joão-de-barro curioso. O Caquizeiro do quintal da Dona Vilma virou o “ponto de encontro” da vizinhança alada. Era uma festa silenciosa e colorida, que só quem parasse para olhar com calma conseguiria perceber.


E que festa era aquela! Quando os caquis amadureciam, o quintal inteiro virava uma celebração. Com uma destreza impressionante, os pássaros colhiam os caquis mais maduros, partindo a casca fina para revelar a polpa gelatinosa. Os tucanos-pais ensinavam os filhotes novinhos a bicar os frutos. Os bebês tucanos, ainda com o bico curto e desengonçado, ensaiavam voos atrapalhados entre um caqui e outro. Dona Vilma costumava dizer que o quintal não lhe pertencia; ela era apenas a zeladora de um banquete que a própria terra organizava.


Dona Vilma assistia a tudo da janela da cozinha, com um sorriso que não precisava de explicação. Às vezes, com uma xícara de café aquecendo as mãos, ela observava o espetáculo. Nunca colhia todos os frutos; aliás, eram muitos. Sabia — de um saber que não se aprende em livros — que algumas coisas não são feitas para serem guardadas. São feitas para circular. O Pé de Caqui não era só dela. Era um ponto de encontro, um pequeno acordo entre o humano e o natural.


— Comam — murmurava, quase em oração. — A árvore também é de vocês.


Dona Vilma só colhia alguns caquis, geralmente os que se encontravam mais baixos. O resto, oferecia de coração. Dizia que o gosto maior estava em ver aquela algazarra de penas e cantos. Quando lhe perguntavam por que não vendia os frutos, já que eram tantos e tão bonitos, sorria com a paciência de quem já atravessou certas respostas, Dona Vilma respondia com simplicidade:


— Nem tudo que chega até a gente é para guardar.


Numa tarde qualquer — embora nenhuma fosse realmente comum — uma vizinha lhe fez a pergunta inevitável:


— Como pode? Um pé de caqui tão bonito, que dá muitos frutos, sem nunca ter sido plantado… é mágica?


Dona Vilma olhou demoradamente para a árvore, para o bambuzal, para o céu, para  os tucanos que, naquele momento, ensaiavam um voo rasante entre os galhos. Havia, naquele instante, uma ordem silenciosa ligando tudo — algo que não se explica, mas se reconhece. E respondeu, com seus olhos mansos de quem já entendeu o que poucos entendem:


— Mágica não, minha amiga. É a natureza agradecendo. A gente cuida do quintal, oferece paz e tranquilidade. Aí, um dia, um passarinho qualquer resolve deixar um presente no chão. Esse presente vira sombra, vira fruta, vira casa. A natureza só quer saber se a gente tem espaço para ela no coração. Se tiver, ela mesma se encarrega do resto.


E, depois de uma pausa que parecia conter mais do que palavras:


— A natureza devolve.


A vizinha não compreendeu por inteiro. Nem era preciso. Mas os tucanos, já pousados no alto do Caquizeiro, entenderam. Um deles, pousado mais perto do que de costume, olhando direto para Dona Vilma por alguns segundos, inclinou levemente a cabeça, como quem observa além da aparência, e soltou seu canto — seco, metálico, quase riso. Dona Vilma riu também. E, por um instante, ela teve a sensação de que havia sido compreendida.


Para Dona Vilma, o caquizeiro era a prova viva de uma matemática sagrada: um pássaro trouxe a semente, a terra deu a árvore, e agora a árvore alimentava os netos daquele primeiro pássaro. No quintal de Dona Vilma, nada se perdia, tudo se compartilhava, e o que não faltava era gratidão — de todos os lados. Um ciclo simples e absoluto: o que chega, transforma; o que se oferece, permanece; o que se compartilha, multiplica. A natureza, em um gesto de gratidão silenciosa, resolveu retribuir com uma árvore frutífera.


E, assim, Dona Vilma compreendia que ali também se revelava a presença de Deus: não em palavras grandiosas, mas no ciclo perfeito da vida, onde cada gesto de cuidado encontra resposta, e cada semente carrega um propósito — como se o divino se manifestasse, discretamente, na harmonia entre o homem e a natureza.


(Marcos Alves de Andrade)

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